Não consigo chorar.
Os meus olhos, árida raiva,
um deserto a ferver.
Cubro o mundo de dôr
num bunker meu,
só meu,
e refugio-me de vós todos,
formas encobertas, passantes,
bizarras;
dos capuzes sem feitiçaria
com que visto
as vossas cabeças em forma de capuz
com que passam ainda.
O meu refúgio é não conseguir
chorar.
Tento pôr os olhos em palavras,
mas engano-me, toldado.
O meu refúgio é doer absurdamente
nos olhos pretos
a recordação de saber chorar,
e é um refúgio que me tolda o ser,
e há também quem lhe chame morte,
antecipadamente.